SAÚDE DOS TRANSPLANTADOS

«Fazer um
transplante é nascer novamente
sem ter
morrido verdadeiramente.
»


A PSICOLOGIA DO PRÉ-TRANSPLANTE
A adaptação à doença
O propósito de um transplante como terapia é o de proporcionar um melhoramento significativo na saúde do paciente, aumentando a sua produtividade, incrementando a sua auto-estima, fortalecendo em geral o seu nível de ajustamento e reduzindo a tensão na família. A transplantação é um processo e não um acontecimento. É um processo que continua ao longo de toda a vida do receptor. Apesar do ênfase que se coloca no ato cirúrgico, é o que o precede e o que se lhe segue que é, para os pacientes e para aqueles que o rodeiam, o permanente foco de
atenção.

Consentimento e motivação para o transplante de órgãos
A confrontação com a existência de uma doença terminal a que se associa a necessidade de realização de um transplante como única forma de sobrevivência, e a forma como tal fato é transmitido pela equipa médica, é sentido pelos pacientes como o primeiro momento de grande dificuldade em todo o processo que envolve esta terapêutica.

A angústia inerente à procura de um doador é inevitável, bem como a que resulta do longo tempo de espera que advém do limitado número de órgãos disponíveis. Este, eqüentemente longo período de espera, é gerador de grande instabilidade física e psicológica. A espera é acompanhada de reflexões sucessivas sobre a decisão tomada, sobre a correção ou incorreção de se ter acedido à realização de um transplante, sobre a chegada do órgão doado que se receia mesmo que não venha a tempo. Estes altos e baixos são relatados como profundamente perturbadores. O período de espera para o transplante não só afeta aquele que a aguarda, mas também todos os que fazem parte do seu tecido social, amiliares, amigos, vizinhos e colegas de trabalho.

Enquanto que o medo e a angústia acompanham as primeiras referências à transplantação alivio e motivação para continuar são vivenciadas quando finalmente é encontrado um doador.


A transplantação de órgãos, é um sistema interativo paciente-família-equipe de transplante funciona numa zona de interface, para o doador. Mas os candidatos a receptores de um orgão não são apenas receptores passivos de uma tecnologia. São antes de tudo pessoas que vão viver antecipadamente com ansiedade, com medo, mas também com a emoção e expectativa de melhorarem e de poderem vir a aceder a uma vida plena.

A PSICOLOGIA DO PÓS-TRANSPLANTE

O pós-operatório e suas emoções


A concretização cirúrgica do transplante mobiliza grande e profunda atenção, está-se nada menos nada mais que a restaurar vida. Porém o ato médico bem sucedido não põe fim a todas as preocupações.O período pós-operatório imediato é um tempo de grandes implicações emocionais. Tomando como referência um evoluir clínico normativo, também é um momento de paradoxo. Os primeiros dias na UTI geram um momento de grande desconforto físico, inerente à cirurgia, mas é ao mesmo tempo um momento de profunda emoção para a pessoa transplantada. É a consciência de ter dobrado o “Cabo das Tormentas”.
Na transplantação de órgãos, à medida que o paciente evolui clinicamente, as doses de esteróides vão sendo reduzidas, diminuindo também todos estes efeitos secundários. As necessidades iniciais de análises de sangue e visitas ao hospital semanais, são também gradualmente reduzidas. O apoio e acompanhamento constantes por parte da equipa médica, dos psicólogos e familiares, assume aqui um papel fundamental.
A Simbolização do Doador
Constitui-se na possibilidade de construção de uma imagem de um doador, que tem os seus contornos as suas características e que é uma outra pessoa que não o próprio. O nonimato, obrigatório por lei, joga um papel fundamental neste processo de elaboração psíquica. O vazio sempre foi qualquer coisa de muito inquietante para nós humanos, rapidamente temos de atribuir sentido às coisas, fenômenos e acontecimentos como forma de fazer desaparecer essa angústia que advém do desconhecido. Ora, aqui a página em branco é a figura de um doador que para além da sua morte gerou vida. Para aquele que a recebeu é intolerável aceitar uma dádiva que não é possível mensurar, de tão profundo que é o seu significado, de uma página em branco. A pessoa transplantada obriga-se, por necessidade absoluta, à construção de uma imagem daquele que foi o seu doador.


Desvalorização da doação.


Em alguns casos parece existir a necessidade de transformar em banal e corriqueiro a forma grandiosa e quase heróica com que mais freqüentemente é tida a doação. Noutros casos neste grupo de indivíduos, a retirada de importância à doação e por conseqüência ao resto do doador tem como alvo a gratuitidade dessa mesma doação.

Matriz familiar e social

Uma doença grave representa um processo de crise intensa que não toca apenas o indivíduo, mas também todo o seu sistema familiar e social. Em conjunto enfrentam o ajustamento emocional inevitável perante um “Eu sonhado” e um “Eu real”. Assim, depois do transplante, o regresso a casa é acompanhado pelo desejo de se ser de novo envolvido nas atividades familiares. Esta plena reintegração na estrutura da família é uma etapa complexa. A resposta da família a esta atitude de recuperação do seu estado de independência é com freqüência extremada, variando entre a hiperproteção à pessoa transplantada e a diminuição radical de apoio e ajuda. É um período em que a família da pessoa transplantada precisa encontrar em si conteúdos psíquicos fortes e sólidos.

O indivíduo transplantado tem que abandonar o seu papel de pessoa doente, o que traz vantagens e inconvenientes. A sua vitalidade, humor, dinamismo e exemplo de vida trazem para aquele que inicia um caminho equivalente, um conforto considerável.
A reintegração familiar, a implicação da rede social do transplantado nos seus projetos de vida são pontos essenciais aos quais deve ser dada uma importância particular, pois são elementos que parecem envolver um prognóstico considerável. As pessoas que apresentam melhor integração social parecem manifestar menor risco de mortalidade do que aquelas que manifestam sinais de isolamento social. De notar que o isolamento deverá ser definido como uma falta de relações satisfatórias, onde existe uma discrepância entre a percepção dos recursos sociais e a situação pretendida ou idealizada.
Nos indivíduos com um baixo suporte social surge geralmente uma maior incidência no agravamento da doença, com conseqüente aumento da incapacidade ou redução da recuperação. Parece, pois, que o suporte social funciona como um mecanismo amortecedor perante situações particularmente difíceis como é o caso de problemas de saúde graves.

A procura de suporte social é uma estratégia possível de adaptação à situação, da qual o paciente não é o único beneficiário. Entre ele e seu suporte social há um conjunto de interações em que cada um pode dar e receber, cada um tem um papel importante a desempenhar. É um sistema que funciona nos dois sentidos. Assim transparece na definição de suporte social como um processo interativo no qual ações e comportamentos particulares podem ter um efeito positivo sobre o bem estar social, físico ou psicológico do indivíduo. A luta pela vida pode ter sido ganha com o transplante, mas a luta por viver plenamente, a luta pela qualidade de vida continua.

Qualidade de vida

Se sobreviver é importante, não é para viver não importa como. A qualidade de vida associada à saúde representa um denominador final comum de terapêuticas tão complexas como o transplante como a “prova de fogo” de um programa de transplantação. À interferência na vida só se justifica se houver uma melhoria para o ser. É o sentido do significado de melhoria que se procura, pois que a felicidade e a infelicidade são existenciais e o valor da vida não se mede pela capacidade de execução biológica.


Neste sentido, será importante analisar a qualidade de vida alcançada após a transplantação, bem como os níveis de ajustamento conseguido, em comparação com o período pré-transplante. Porém, a grande maioria dos estudos sobre a qualidade de vida no transplante de órgãos, é unânime ao afirmar que maioritariamente os pacientes, um ano após a intervenção, percepcionam a transplantação de uma forma bastante positiva.

O bem estar físico sofre uma melhoria significativa, referindo os pacientes que se sentem bem, fazendo a maior parte das atividades que faziam antes de adoecer. Relatam menor
dificuldade em executar as atividades do dia a dia, sentindo-se mais saudáveis e de uma forma geral fisicamente bem. Relatam uma qualidade de vida adjetivada de boa a excelente, considerando ter alterado de uma forma significativamente positiva a imagem de si mesmos, a capacidade de projeção no futuro, a qualidade do suporte social e também a sua independência.

Num estudo comparativo entre diferentes tipos de transplantes, coração, fígado e pulmões, relativamente à qualidade de vida percepcionada, constata-se que eram as pessoas transplantadas pulmonares que relatavam melhores resultados em todos os domínios da qualidade de vida, físico, psíquico e social. Foi encontrado um sentido para esta constatação no profundo contraste vivido pelos pacientes que sofreram uma insuficiência respiratória grave prolongada que foi removida repentina e completamente através da transplantação pulmonar. Este contraste por talvez ser vivido com maior sofrimento psíquico, conduz posteriormente a uma percepção muito positiva da nova situação alcançada, o que se generaliza para as outras áreas da vida.


Um ano após a realização do transplante a maioria das pessoas apresenta um ajustamento psicosocial favorável, sentindo-se mais felizes, menos ansiosos e, sobretudo descrevendo um nível de satisfação que, quando comparada com a que é sentida por um grupo de controle (sem doença), é significativamente superior. É a referência a uma sensação de renascimento.

A forma como o indivíduo se considera é de central importância para o seu sentimento de bem estar e de saúde mental. Um ano após a transplantação os pacientes revelam uma auto-estima marcante comparada ao período pré-transplante. A restauração da saúde tem uma repercussão imensa na evolução da auto-estima, na capacidade de se verem e sentirem seres independentes, possuidores do controlo sobre o seu destino.


A reabilitação profissional oscila e depende de múltiplas variáveis tais como a idade. Os estudos que foram desenvolvidos até hoje parecem apontar para um melhor ajustamento por melhor as suas atividades que fazem parte da sua vida. Um ano após o transplante, as mulheres apresentam menores níveis de ansiedade, maior estabilidade na auto-imagem e sentimentos de maior controle sobre o seu próprio destino. Estes resultados são interessantes se comparados com os encontrados no seio de uma população adulta normal. Nesta são as mulheres que apresentam níveis de ansiedade mais elevados, bem como maior tendência para o adoecer mental. Contudo, quando confrontadas com a situação de transplante, parecem ter um ajustamento psicológico superior. Foram tentadas explicações várias, entre as quais a que se associa aos papéis se espera da mulher uma atividade ocupacional tão grande para com a família. Para um homem, sentir-se bem sucedido envolve segurança no trabalho e manutenção de um elevado nível de performance ocupacional. O nível de educação e a disponibilidade financeira, estão associados a uma auto-estima mais elevada. Dinheiro e educação são aparentemente recursos que protegem o próprio contra o impacto do stress de vida, nomeadamente o que resulta de um problema grave de saúde. Os pacientes que um ano após o transplante, ainda se encontram preocupados com questões sobre os seus recursos financeiros, apresentam-se mais ansiosos e menos felizes em geral.

Os relacionamentos intrafamiliares jogam também um papel decisivo. Seria de esperar que uma família chegada ajude a mediatizar o stress resultante da doença e da recuperação. Os pacientes que no pré-transplante sentem a família como mais próxima e disponibilizadora de maior apoio, um ano depois do transplante apresentam-se menos ansiosos, com maior estabilidade, e maior sentimento de controle sobre a sua própria vida.

Naturalmente, e como seria de esperar, os pacientes que anteriormente ao transplante possuíam uma auto-estima mais favorável e um sentimento de se manterem melhor ajustados no período pós-transplante. Os estudos efetuados neste sentido salientam o fato de esta relação ser o melhor preditor do nível posterior de ajustamento emocional.

Assim, a noção de qualidade de vida e a sua análise em pacientes sujeitos a terapia exigentes quer a nível emocional, quer financeiro é vital. Os vetores utilizados para esse efeito mostram então que, em todas as dimensões, um ano após o transplante e, comparativamente com o período pré-transplante, constata-se uma evolução positivamente acentuada nos pacientes sujeitos a este tipo de intervenção. Acima de tudo a sensação de bem estar e felicidade e a auto-imagem, parecem ser os aspectos mais extraordinariamente afetados pelo retorno à saúde. A emergência bem sucedida de uma crise severa e a proximidade com a morte, parece produzir uma apreciação da vida ainda maior do que o comum das pessoas, uma maior maturidade e uma noção de valores mais clara em relação a um bem que quase se perdeu. A “segunda oportunidade de vida” é olhada com grande
apreciação.


Determinante nesta apreciação é a referência passada na definição do momento presente. e acordo com as teorias desenvolvidas, o nível de satisfação absoluto do indivíduo é dependente do ponto de comparação que este estabelece com o momento anterior que viveu. Para a pessoa transplantada, a memória de como se sentia quando a doença tornava a morte uma realidade muito próxima, parece ser fundamental. São a gratidão constante, os elevados níveis de satisfação que se sentem, pois que não mais se está a sofrer, porque não mais se está doente, regressando o vigor para a vida.

A transplantação pulmonar é na sua essência um veículo de esperança, esperança que urge ser harmonizada com o indivíduo, seu protagonista. Aquele que sobrevive é aquele que é biologicamente mais forte, ou que o Mistério, que é a vida, abraçou. Mas é também e, sobretudo, aquele que abandona a crisálida de sobrevivente para mergulhar profundamente na vida, é aquele que a ama, que se ama, por isso ama os outros, mesmo o Outro anônimo. Só um ser humano, abraçado no seu todo, se constitui plenamente num veículo transformador de uma morte “anunciada”, numa vida prometida.

Análise Psicológica
(2004),

(*) Baseado em Dissertação de Mestrado subjugada
ao tema “Transplantação Pulmonar: Como se sobrevive”. a uma morte anunciada?” Fevereiro de 2003”.
EDITE TAVARES: Mestre em Psicopatologia e Psicologia Clínica

 

 



 


 
© 2007 Transplante Pulmonar Online Inc. All rights reserved. layout by Rodrigo Tebaldi