SAÚDE DOS TRANSPLANTADOS

 

As drogas imunossupressoras promoveram uma grande transformação nos transplantes nos últimos 40 anos e, hoje em dia, são essenciais para o sucesso de um transplante de órgãos sólidos. “Os imunossupressores são, atualmente, o mais importante aspecto dos transplantes”, afirma Elias David Neto, Supervisor de Pesquisas da Unidade de Transplante Renal do Hospital das Clínicas da Universidade de S. Paulo. Veja abaixo e acompanhe a entrevista:


  • Imunossupressores e imunologia
  • Rejeição do órgão transplantado
  • Adesão ao tratamento e qualidade de vida
  • Imunossupressão e futuro

Imunossupressores e imunologia


Como atuam os medicamentos imunossupressores no processo de rejeição do órgão?

Os imunossupressores modificam a resposta de defesa do organismo contra o órgão doado: é preciso enfraquecer o sistema imunológico – ou de defesa - para que não aconteça o que chamamos de processo de rejeição. Mas o corpo humano acaba encontrando uma via de escape e “dribla” o medicamento. Cada vez que uma via é totalmente bloqueada, o organismo encontra outra e, a cada droga que aparece nos damos conta de que não conseguimos mudar totalmente o processo de rejeição. Precisamos, então, de um novo recurso para bloquear aquela via. É por isso que a descoberta de drogas imunossupressoras ajuda a desvendar os mecanismos de defesa do organismo. Os imunossupressores agem em diferentes pontos da resposta imune, por isso são combinados em esquemas, cada qual atuando em diversas partes do processo de rejeição. Hoje existe tal quantidade de imunossupressores que é possível montar, pelo menos, 52 esquemas diferentes.


É possível saber qual é o melhor esquema para cada paciente?

A resposta imunológica varia com a idade: os jovens têm um sistema imune mais forte do que os idosos. Existem diferentes tipos de sistema imune, e, portanto, as respostas são diferentes. Por exemplo, ao dar a mesma dose de vacina para a população, 10% das pessoas vacinadas criam uma quantidade exagerada de anticorpos no sangue, 10% não criaram anticorpo nenhum e 80% têm uma resposta dentro do esperado.


Quais são as etapas da imunossupressão?

O órgão a ser transplantado é retirado do doador e lavado com uma solução de preservação. Ao transplantar um rim, por exemplo, são transplantadas também as células do doador que, durante certo tempo, estarão circulando no receptor. É o que chamamos de microquimerismo, em alusão à quimera, um animal com a cabeça de outro, que estimulará o sistema de defesa do receptor. Tal resposta é mais importante no início, pois o organismo identifica e reage mais facilmente contra as células do doador. Como a resposta à rejeição é mais importante nos primeiros meses, usamos maior quantidade de imunossupressores no início. Com o tempo, as células do doador desaparecem ou diminuem sua freqüência e o organismo do receptor passa a reconhecer o órgão transplantado por meio de outro mecanismo menos intenso. Por isso, é usada uma menor quantidade de imunossupressores na fase mais tardia do transplante. Além disso, os processos de rejeição crônica, provavelmente, são diferentes daqueles da fase aguda.


A lista dos efeitos colaterais dos imunossupressores era enorme há alguns anos. E hoje?

As drogas novas atuam cada vez mais sobre os mecanismos que precisam ser abolidos, tentando evitar efeitos colaterais. Usamos menos medicamentos do que no passado. Se o paciente não rejeitar o órgão transplantado nos primeiros seis meses, reduzimos a dose, e o efeito colateral quase não aparece. Antes, usávamos uma enorme quantidade de medicamentos, mas isso não existe mais, pois é possível dosar quase todas as drogas e calcularmos a quantidade exata de cada uma delas. Aprendemos os mecanismos, a usar e a monitorizar os imunossupressivos.


Como é feita a monitorização?

A monitorização é feita através da medição da quantidade de imunossupressores no sangue para avaliar se o nível está bom ou ruim. A cada tipo de transplante corresponde uma concentração e combinação de medicamentos.


Rejeição do órgão transplantado


O dilema da rejeição aguda caminha para o fim com os avanços dos imunossupressores?

Há dez anos, a rejeição aguda acontecia em torno de 50% a 60% dos transplantes. Hoje, sua incidência é menor que 20%. Acredito que isso se deve a vários fatores: ao entendimento dos mecanismos de rejeição, às drogas imunossupressoras que modificam esses mecanismos e à compreensão de como usar tais medicamentos. Tudo isso fez com que as rejeições agudas diminuíssem.


E quanto à rejeição crônica?

O problema da rejeição crônica é que, provavelmente, possui alguns mecanismos diferentes. Ainda não entendemos como os imunossupressores podem modificar essa resposta tardia. Até hoje a preocupação principal era reduzir a incidência da rejeição aguda e, como ela já não é mais um grande problema, estamos preocupados em saber com o que acontece em longo prazo.


Adesão ao tratamento e qualidade de vida


O paciente transplantado adere ao tratamento?

A maioria dos pacientes transplantados se acostuma aos inúmeros medicamentos que recebe diariamente. Mas também existe o fenômeno da não-aderência, responsável por um percentual de perda do órgão transplantado em longo prazo. O paciente que está com o órgão que recebeu há um determinado tempo acredita que esse órgão já é próprio e que não precisa mais de imunossupressores. Não é fácil tomar remédios regularmente durante toda a vida. Ou ele começa a falhar ou abandona os medicamentos. Essa não-aderência leva, consequentemente, à perda do órgão transplantado.

Esses medicamentos interferem na qualidade de vida do paciente?

O uso de imunossupressores interfere na qualidade de vida do paciente se comparado a um indivíduo normal. Primeiro, porque ele precisa tomar remédio. Depois, porque o remédio tem algum efeito colateral que interfere na qualidade de vida que, embora seja boa, não pode ser equiparada à de uma pessoa normal.

Costuma-se dizer que, após o transplante, o paciente terá uma vida normal. Em que parâmetro isso acontece?

paciente transplantado pode ter uma vida normal, mas uma pessoa normal, provavelmente, não toma inúmeros remédios. O paciente transplantado também vai mudando sua percepção de qualidade de vida. No início, quando o paciente necessita de um transplante, ele deseja ficar vivo. Depois do transplante, a sua ambição é que o órgão que recebeu dê certo e não o rejeite. Uma vez que o órgão está indo bem, ele não quer ter efeito colateral nenhum com os medicamentos. Depois que não houver efeitos colaterais e o órgão funciona bem, o paciente deseja não tomar mais remédios e quer continuar com qualidade de vida comparável às pessoas que não têm nenhum problema. Creio que isto é humano. Essas são escalas de progressão em qualquer indivíduo saudável ou não. Mas sempre há que se comparar com a outra alternativa para manter vivo aquele determinado paciente, em vez de comparar-se com pessoas normais: o paciente transplantado renal tem que comparar-se com a outra alternativa, no caso, manter-se em diálise.

A qualidade de vida de quem fez transplante renal não é igual à de um indivíduo normal, mas é possivelmente melhor para a maioria dos indivíduos que a diálise. Em nenhuma das duas opções – transplante ou diálise - ele poderia levar uma vida normal, e nunca propusemos isso, mas sim melhorar a sua qualidade de vida em relação à outra alternativa. A população acredita que fazer um transplante é ficar curado. A ciência deseja prolongar a vida ao máximo, melhorar a qualidade de vida dessa pessoa, mas não necessariamente, conseguir evitar qualquer problema.


Imunossupressão e futuro

Quais os desafios que os imunossupressores colocam para a medicina?

desafio é encontrar um esquema de imunossupressão que mostre ao sistema imune que, agora, há novas células contra as quais ele não precisa responder. Um dia conseguiremos uma droga que controle o processo de rejeição e, ao mesmo tempo, eduque o sistema imune dizendo-lhe: agora você tem um motor novo. O carro é de uma marca, o motor novo é de outra, mas podem trabalhar em conjunto. Acredito que essa seja a tendência.


Chegará o dia em que as pessoas não precisarão mais tomar imunossupressores?

ste processo do qual falamos é chamado de tolerância, mas é um treinamento e, não necessariamente, conseguiremos esse efeito sem o uso dos imunossupressores. Provavelmente teremos que usar medicamentos por um determinado tempo para produzir mecanismos que levem o sistema imune a reconhecer aquelas células como próprias. Sempre se diz que haverá o dia em que não precisaremos mais usar drogas. Eu não sei se será assim. Provavelmente, não. Precisaremos de esquemas para treinar o organismo a desenvolver essa capacidade de reconhecimento do novo órgão.



Fonte: Roche

 



 


 
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