AMIANTO POR TODO O PAÍS 

06/08/2007 
 

As coberturas de edifícios em fibrocimento - uma mistura de cimento com cerca de 20% de amianto - existentes em Portugal equivalem a 600 mil campos de futebol, segundo especialistas na matéria. Apesar dos perigos conhecidos da inalação daquele mineral, responsável por muitos casos de cancro do pulmão, continua por fazer-se a inventariação de todos os edifícios que contenham amianto na sua construção. A determinação para fazê-lo já existe, desde 2003, emanada da Assembléia da República. Enquanto nada se faz, os dois únicos laboratórios existentes no país para medir o grau de risco existente vão dando resposta aos apelos desesperados que, ultimamente, ali chegam oriundos de estabelecimentos de ensino. 

De quando em quando, surgem sinais de preocupação, por todo o país, face aos possíveis riscos da presença de amianto nas edificações. Na semana passada, o JN deu conta da preocupação existente em Santa Maria da Feira, onde, dos 190 edifícios escolares, 24 jardins-de-infância e uma escola secundária têm coberturas de fibrocimento. 

Ricardo Macedo, responsável pelo Laboratório de Controlo de Fibras - o único do sector privado com competência para analisar a presença de amianto nas construções, a par do Instituto Ricardo Jorge, no sector público - confirmou, ao JN, que, ultimamente, muitos têm sido os diretores escolares a pedir uma vistoria aos estabelecimentos de ensino, pressionados pelas associações de pais. Sabedores de que as construções anteriores a 2005 recorreram ao fibrocimento, os encarregados de educação têm receio que a saúde dos filhos esteja em questão.  

Hélder Spínola, da associação ambiental Quercus, referiu, ao JN, que o perigo existe quando as estruturas estão já muito envelhecidas. "Não havendo manutenção das instalações, há o risco de o amianto ser libertado da mistura no fibrocimento e, ao ser inalado, constituir uma fonte de risco para o cancro do pulmão", salientou.  
 
O ambientalista recordou que a doença acaba por surgir 10 ou 15 anos depois da inalação. Por isso, defende que seja feito um levantamento das situações existentes em todas as zonas públicas, com prioridade para as escolas. "É preciso ver que as crianças e os adolescentes são os que estão mais sujeitos a vir a sofrer da doença na idade adulta e sem perceberem, então, a origem de um cancro nos pulmões", realçou Hélder Spínola.

 
Ricardo Macedo concorda que é urgente um levantamento da situação existente em todo o país. “Há 600 mil hectares, ou seja, o equivalente a 600 mil campos de futebol, de placas de cobertura de fibrocimento em todo o país”. E para inspecionar toda essa área, existe apenas dois laboratórios. 

O responsável pelo Laboratório de Controlo de Fibras recordou que a decisão de se proceder à inventariação de todos os edifícios públicos que contenham na sua construção amianto já tem três anos. Na realidade, a Resolução da Assembléia da República n.º2003 assim o determinava, estipulando, inclusive, o prazo de um ano para o levantamento estar concluído. 
 
"Nunca foi nada feito. Neste país, leis não faltam, só falta é fazê-las cumprir", ironizou Ricardo Macedo, ao mesmo tempo que classificava de "utópico" realizar "um trabalho dessa envergadura no prazo de apenas um ano".

 
Hélder Spínola defende que não só deve o Governo acelerar a elaboração do levantamento, como deve criar equipas que acompanhem as demolições de construções. "Em muitos casos, deveria haver uma intervenção prévia, para a remoção do amianto existente. Já denunciamos isto várias vezes, mas, na verdade, continua-se a demolir sem ter esta precaução", salientou.  
 
Ricardo Macedo lembra a necessidade de não se lançar o pânico, no seu entender muitas vezes "infundado". E recordam uma investigação feita pela Universidade de Leicester, no Reino Unido, a edifícios da Europa, EUA, Japão e Canadá. O estudo revelou que, no exterior e interior dos edifícios, as concentrações de fibras respiráveis de amianto são muito menores que o valor-limite de exposição, que é de 0,1 fibras por centímetro cúbico.  
 
 

O amianto foi utilizado, até 2005, em Portugal, na construção de edifícios. O risco da inalação no cancro do pulmão determinou o seu abandono

 
O que é e para que serve? 
 
O amianto é um mineral que, devido às suas extraordinárias propriedades mecânicas e químicas, tem servido em múltiplas aplicações, da indústria têxtil, química e aeronaval à produção de tintas e plásticos. 

Que propriedades tem? 
 
O amianto é uma fibra incombustível e resistente a temperaturas elevadas, mas também a numerosas substâncias químicas, à eletricidade, à tração e ao desgaste e aos microrganismos.  
 

É alvo de polêmica por quê? 
 
Desde a segunda metade do século XX, tem-se gerado uma enorme polemica à volta desta matéria-prima, dado ter sido descoberto que alguns tipos de amianto podem provocar doenças de maior ou menor gravidade no Homem, se na sua utilização não forem tomadas as devidas precauções.  
 
É sempre perigoso? 
 
Segundo a Organização Mundial de Saúde, todas as formas de amianto são perigosas para a saúde, quando as fibras de dimensões respiráveis são inaladas, e podem originar as seguintes doenças: asbestose (doença pulmonar), cancro pulmonar e mesotelioma. A probabilidade de uma substância produzir doença profissional depende de vários fatores: dimensão das partículas, concentração das fibras respiráveis em suspensão no ar, tempo de exposição às fibras, susceptibilidade individual.  
 
Sede da Comissão Européia foi obrigada a encerrar 
 
De todos os casos de estruturas onde o amianto apresenta perigosidade, o mais conhecido foi o caso do edifício Berlaymont, o mais emblemático da União Européia.  
 
Situado em Bruxelas e erguido em 1967, é naquela construção em forma de estrela que funciona a sede da Comissão Européia. Em 1991, o edifício viu as suas portas fechadas, ficando totalmente desocupado, devido à presença de amianto.  
 
As obras prolongaram-se por nove anos (mais dois do que o previsto), até Outubro de 2004. Apenas quatro anos depois do seu encerramento, começou a retirar-se o amianto da estrutura original, suspensa por cabos de aço. 

A fibra incombustível, de origem natural, alcançou uma popularidade enorme na construção dos anos 70, até que uma década depois veio a descobrir-se que o desprendimento do amianto podia causar cancro. 
 

Fonte: Sapo.pt

 





 
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